Violência nas escolas e a baixa qualidade do ensino tradicional motivam pais a educar filhos em casa.1,5 milhão de crianças recebem ensino fora das salas de aulas e esse número aumenta em média 7% ao ano.. Entre as vantagens da prática estão qualidade e rapidez no aprendizado. Até recentemente, a prática de home schooling (educação domiciliar) nos Estados Unidos era mais comum entre famílias brancas, mas um crescente número de negros tem, atualmente, retirado seus filhos das escolas públicas e optado por educá-los em casa. Mas por quê?
"Há muitas brigas e pessoas levando tiros (nas escolas)", explica Sonya Barbee, uma das que recorreram ao ensino doméstico. "Era demais, não era um bom ambiente para uma criança. Apesar de eu trabalhar em período integral e ser difícil para mim, ainda acho que foi a decisão correta”.Sonya não está levando uma vida fácil. Mãe solteira e funcionária do governo dos EUA, ela agora tem a tarefa adicional de ser professora de seu filho de 11 anos, Copeland. Mas nem a violência, nem o fato de seu filho sofrer bullying, foram a gota d'água. Sonya tomou a decisão de tirar Copeland de uma escola pública em "uma área ruim de Washington" porque o menino estava "perdendo seu amor pelo aprendizado".
Agora, com a ajuda da mãe de Sonya, que cuida de Copeland duas vezes por semana enquanto ele estuda na internet, ela espera "reacender a chama" da curiosidade do filho. Ensina-o depois de sua jornada de trabalho e em feriados. Seu único lamento até agora é pelo fato de Copeland não estar muito animado, por sentir falta da "loucura" da sala de aula. Mas ela ressalta que o processo de educação domiciliar do filho ainda é recente. Cerca de 2 milhões de crianças americanas (4% do total) são educadas em casa, segundo a NHERI, associação norte-americana que estuda esse setor (National Home Education Research Institute). O número, porém, é uma estimativa, já que em muitos Estados as famílias não precisam registrar oficialmente que praticam o ensino doméstico."Uma avaliação realizada pelo National Home Education Research Institute (Institute Nacional de Pesquisa sobre Educação Domiciliar) com mais de 10 mil estudantes dos 50 estados norte-americanos demonstrou que os chamados “homeschoolers” obtiveram pontuação mais alta que os estudantes das escolas públicas e privadas americanas em todas as matérias pesquisadas (leitura, língua inglesa, matemática, ciência e estudos sociais)."
Trata-se do aprender pelo prazer de aprender, não para simplesmente passar em uma prova e depois esquecer”
A prática, antes mais comum entre famílias cristãs brancas no sul rural do país – que criticavam o "liberalismo" de escolas públicas quanto a educação sexual e o darwinismo -, tem ganho adeptos entre pais urbanos, com motivações mais educacionais do que religiosas. O número geral de home schoolers tem crescido já há algum tempo, mas até há pouco era incomum entre famílias negras, segundo o diretor do NHERI, Brian Ray.
"Para a comunidade afro-americana, havia uma grande pressão contra (o ensino doméstico), porque, nos EUA, os avós das crianças hoje educadas em casa lutaram contra a segregação nas escolas. Eles pensavam que as escolas públicas iriam salvá-los (da discriminação social)", diz Ray. Mas, segundo ele, essa atitude tem mudado rapidamente.
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Joyce Burges, cofundadora da associação Educadores Domiciliares Negros, que educou em casa seus cinco filhos, afirma que "os fracassos do ensino público fizeram com que todos nós, brancos ou negros, buscássemos ideias criativas sobre a educação de nossos filhos". "Isso explica o aumento no número de escolas cooperativas e de afro-americanos vendo que (as alternativas ao ensino público) não são mais uma coisa de brancos", afirma.
Desempenho
Apesar do fim da segregação nas escolas, há um abismo no desempenho escolar de brancos e negros que pouco mudou desde os anos 1960. O problema é especialmente sério entre meninos negros. Segundo um estudo de 2008 da Fundação Schott, "nos últimos 25 anos, os desempenhos sociais, educacionais e econômicos de homens negros têm sido mais devastadores do que os de qualquer outro grupo racial ou étnico".
Monica Utsey, que coordena uma cooperativa de ensino domiciliar para crianças negras em Washington, diz que, "para mães afro-americanas, especialmente as mães de meninos, têm muitos problemas com o sistema de ensino. As salas de aula são melhores equipadas para meninas".
Pessoalmente, porém, sua principal motivação para educar seus filhos em casa era cultural: ela queria que as crianças aprendessem mais sobre suas raízes africanas e não achassem "que sua história começa com a escravidão".
Outra grande vantagem deste tipo de educação é a rapidez. Enquanto uma criança matriculada em uma escola tem que passar toda a manhã ou toda a tarde em sala de aula, o ensino em casa é normalmente feito em uma ou duas horas por dia. Significa muito mais tempo livre para as atividades extracurriculares e passeios.Os home schoolers são duros críticos do sistema educacional, argumentando que os professores não oferecem uma educação ampla e atribuem qualquer problema de comportamento infantil a síndromes de deficit de atenção e hiperatividade."Os professores estão sempre dizendo aos pais que eles precisam medicar seus filhos, como se estes tivessem um problema médico. É uma loucura", diz Sonya Barbee. "Ninguém quer que seu filho vire um zumbi".
As cooperativas de ensino doméstico, em que as aulas são feitas pelos pais para grupos de idades mistas, se espalharam por cidades americanas nos últimos anos, ajudando a quebrar o estigma de isolamento das crianças educadas em casa – algo que era um constante alvo de críticas.
Não é para todos
Mas mesmo os defensores mais entusiasmados do modelo admitem que ele não é adequado para todas as famílias – costuma funcionar só para os pais mais comprometidos com todos os aspectos educacionais e que realmente desfrutam do tempo passado ensinando seus filhos.
Prática antes comum entre famílias cristãs brancas que criticavam o "liberalismo" de escolas públicas, ensino domicilar se populariza entre negros
Joyve Burges acredita que pode estar perto o dia em que a cooperativa de ensino doméstico local, conduzida por um grupo de pais comprometidos, viraria uma alternativa real à escola pública, para crianças de todas as idades e etnias. Aparentemente, a demanda para tal existe.Os fracassos do ensino público fizeram com que todos nós, brancos ou negros, buscássemos ideias criativas sobre a educação de nossos filhos .
"Toda hora recebo e-mails e telefonemas de pessoas querendo saber se há alguém disponível para educar seu filho em casa", diz Monica Utsey. "Digo a eles que não funciona assim. A responsabilidade é dos pais”.
Informações do IG











