O surrealismo e o devorador de sonhos

Talvez nenhuma das vanguardas artísticas do início do século 20 tenha tido tantas repercussões no design, na mídia e no pensamento visual como um todo, do que o surrealismo. Não é à toa que quando surrealistas e anarquistas tentaram uma aproximação entre si, nenhum dos dois grupos entendeu direito o que significava aquela “união”, que nunca chegou a ocorrer efetivamente, na verdade. É que a temperatura de expressão do surrealismo responde ao sonho e a pensamentos não-convencionais assim como o anarquismo, mas com um viés claro no subconsciente, à mundos situados além da realidade aparente, à universos estranhos e misteriosos que nada tem a ver com reivindicações políticas ou preocupações sociológicas como premissa
básica.
Numa especificidade maior, o surrealismo também se diferencia da arte visionária, dos Realistas Fantásticos que tem em Jung e nas suas múltiplas descobertas, novas dimensões de consciência, enquanto que os surrealistas adentravam sua inspiração nos sonhos e escritos de Freud. Mas mais do que essas diferenças, o surralismo tinha suas próprias dinâmicas artísticas, porque quando foi lançado o primeiro jornal
surrealista La Revolution Surrealiste, os que aderiram ao movimento como Max Ernest e André Mason, achavam que a cultura ocidental não dispunha mais de nada para oferecer e que era necessário romper com as tradições. Esse rompimento longe de não propor nada em troca, como o dadaísmo que focava na destruição da arte antiga e instava por criar uma arte sem raízes; adotava táticas como a escrita automática e o desenho automático, liberando o subconsciente. No final, o grupo só se unia mesmo por se voltarem justamente ao subconsciente sendo muito ecléticos e sem um estilo comum.
A assimilação do surrealismo pelo mass media talvez tenha alcançado seu auge quando Salvador Dalí assombrou o mundo e anos depois foi copiado e recopiado em camisetas, bottons, bonés e mídia em geral. Numa de suas séries, Gargantua e Pantagruel, Dalí dá vida a um jogo de imagens extraordinário, ilustrando o quinto centenário da novela
Gargantua e Pantagruel de François Rabelais com um ponto de referência no pintor alemão Hieronymus Bosch. Do encontro entre Bosch, Dalí e Rabelais nasceu aquela série que nos faz pensar sobre uma continuidade na arte através dos tempos, mesmo antes da definição de surrealismo por André Breton. A filosofia da arte, aliás, já teceu ricos comentários a respeito do conceito de eterno retorno, por exemplo,
indo desde a obra do precursor dos surrealistas, o mesmo Bosch (1450-1516) até os quadrinhos do recentemente falecido Moebius e sua Garagem Hermética. Em suma, o surrealismo foi devorado pela cultura de massa que vomitou, em troca, um sem-número de produtos incluindo desenhos animados e filmes. Como se dará a influência artística do surrealismo nas próximas décadas? Terá chegado ao fim a sua influência? São perguntas que só podem ser respondidas no bojo de uma cultura que é não só midiática, mas artística, social e política.


MAURICIO DUARTE possui Bacharelado em Design Gráfico pela Escola de Belas Artes da UFRJ. Formado em web design pelo Senac de Niterói RJ. É artista visual catalogado pela Biennali Del Libro d´Artista de Nápoles na Itália. Já publicou 7 livros e escreve quinzenalmente na coluna sobre literatura e artes visuais neste site.